1ª Reflexão da 4ª Semana Eucarística

9 de junho de 2021

4ª Semana Eucarística da Paróquia Nossa Senhora da Conceição – João Monlevade-MG.

Tema: Eucaristia: fraternidade e diálogo compromisso de amor!

Lema: “A fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 20-21).

1º dia – Tema: A Eucaristia: Revelação do sentido da Cruz a partir do lava-pés.

Na Ceia, Jesus antecipava sua entrega na cruz, quando o seu Sangue, de verdadeiro e novo Cordeiro, libertaria a humanidade inteira da escravidão do mal. Ele quis assim, naquela ceia derradeira, consagrar pão e vinho separados para significar de que morte iria morrer. Ao dar-se, corpo e sangue separados, Jesus denuncia toda a violência e a supera, na Paixão, ao reprimir a reação intempestiva de Pedro (Jo 18, 9-11); ao acolher os insultos dos soldados, dos sumos sacerdotes e da multidão (Jo 19, 1-15); ao silenciar diante de Pilatos e, na cruz, ao perdoar os inimigos e rezar pelos que o odiavam: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Cristo, em sua última ceia, que antecipou de um dia da ceia dos judeus, se revela como o verdadeiro cordeiro pascal. O cordeiro daquela primeira páscoa dos hebreus, no dia de sua saída do Egito, foi alimento e sinal (Ex 12,3-4; 11-12). Alimento para a família, que devia comê-lo como um banquete cerimonial, e sinal, marcado nos umbrais e nas travessas das portas das casas, de modo a afastar a presença do anjo exterminador (Ex 12, 7. 12-13). Hoje, o Sangue de Cristo marca a porta de nossos lábios na santa comunhão e afasta a presença do mal (São João Crisóstomo).

Jesus Cristo em sua última Ceia, na noite em que foi traído, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies de pão e de vinho (Instituição da Eucaristia) e as deu aos apóstolos como alimento e mandou aos seus sucessores no sacerdócio fazerem disso a oferta, dizendo “Fazei isso em memória de mim” (Instituição do Sacerdócio Ministerial). O profeta Elias é alimentado por Deus através de um anjo, porque tem um longo caminho a percorrer (1Rs 19,7). Isaias descreve o tempo messiânico como um banquete na montanha (Is 26,6-8). Javé foi sempre o amparo do órfão, da viúva, do estrangeiro e do pobre (Sl 146,9). Os salmos são louvores ao Criador, toda a criação canta hinos de ação de graças. Todos os bens da criação têm um destino universal. A terra e seus bens são para todos. Terra para todos e terra sem males em favor da vida. O plano criador é o Éden, o jardim que o pecado humano transformou em deserto, estepe, terra seca e geopolítica. Enfim, Jesus nasce em Belém, cidade do pão. Em pleno ministério público, Jesus, cheio de compaixão pelo povo, ordena aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6,37). Multiplica os pães para saciar a fome do povo e identifica-se com os famintos: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35). Jesus está faminto. Na Eucaristia e nos pobres contemplamos o rosto de Jesus. A Igreja tem dois tesouros: os pobres e a Eucaristia. O pão do céu é para a vida do mundo (Jo 6, 51). Foi no partir do pão que os discípulos de Emaús reconheceram a Jesus (Lc 24,31).

A Cruz de Cristo é transformada de sinal de morte e dor em manifestação do misterioso amor de Deus pelos seus filhos e filhas. O corpo do Senhor pregado na Cruz atrai todos os olhares e corações, de modo que o seu peito aberto se torna uma porta que conduz a todos ao Pai. Desse modo, todos são convidados a aproximarem-se Dele, que se entrega na Cruz para alcançarem a misericórdia e o auxílio divino no tempo oportuno. Pois a sua cruz coloca todos diante do mistério do amor do Pai, que acolhe, no Seu Filho nela entregue, os seus filhos e filhas dispersos pelo pecado. Sendo assim, os fiéis são convidados a aproximarem-se com confiança da Cruz de Cristo e nela serem tocados pelo mistério do Amor do Pai, convidados a fazerem a experiência da acolhida e da misericórdia reveladas no Senhor morto. A cruz era reconhecida como símbolo de dor e sofrimento, de agonia e condenação, de maldição e punição, seja pelo Império Romano, quanto para o Judaísmo (Dt 21,23). Todavia, aquela que era um instrumento de punição, se torna, por meio da entrega de Cristo, sinal de um amor sem limites, da redenção e salvação da humanidade. Na cruz de Cristo está expresso o misterioso amor de Deus pelos seus filhos e filhas, sinal concreto da plenitude de seu amor, de sua proximidade junto a todos os homens sofredores e marginalizados, esquecidos e abandonados.

Refletir sobre o significado do gesto do lava-pés nos leva a concluir que ele transforma as relações de domínio em relações de serviço, supera as rupturas e divisões, criando relações de aliança, invertendo o comportamento egoísta em atitude de fraternidade. Jesus fez de sua vida um grande lava-pés. Seu jeito de amar e respeitar as pessoas, de ser irmão e servidor, de doar-se aos outros, de entregar sua vida pela salvação do mundo, é um lava-pés existencial.

Pelo lava-pés, os inimigos tornam-se amigos, as relações truncadas tornam-se mais amáveis e possíveis, o outro é respeitado como irmão, amigo e companheiro. Ninguém é espezinhado, empurrado, pelo contrário, é colocado de pé caso tenha caído. Estar aos pés de quem caiu, fracassou, faliu é um verdadeiro lava-pés. Isso tudo cura os pés feridos.

Encurtar distância, vencer diferenças, superar divisões, socorrer as vítimas da injustiça é lavar os pés dos outros, até que ninguém mais seja chutado, pisoteado pelo abuso do poder, pela vingança, pela intolerância e pelo orgulho. Tem os pés sujos quem alimenta ódio, raiva, crueldade. O lava-pés nos faz peregrinos na direção do irmão e dá coragem para o diálogo, o perdão, a reconciliação. É banido à discriminação, racismo, a exclusão, a mentalidade de privilégio, de classe de superioridade.

Lava-pés é acolhimento, hospitalidade, aceitação dos outros, voluntariado, altruísmo, solidariedade. É optar pela misericórdia, pela compaixão, pelo cuidado e pela comunhão. É ter o coração aberto para acolher a proposta e os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tudo em memória dele.

Num ambiente de discórdia, divisão, brigas, indiferença pelos pobres, falta de compromisso comunitário, de aceitação e compreensão dos limites uns dos outros, não se deve celebrar a Eucaristia. Na lógica do lava-pés, o outro é o centro e digno de ternura, respeito, consideração. Jesus, inclinando-se para lavar os pés, explicou de forma inequívoca o sentido da Eucaristia.

O amor fraterno é a prova da autenticidade das nossas Celebrações Eucarísticas. O lava-pés é o poder da ternura. Aqui a violência é sinônima de fraqueza e derrota. Ou viveremos todos como irmãos ou morreremos todos como loucos. Quem se inclina para lavar os pés eleva-se diante de Deus. É superada a relação senhor – escravo pela relação de igualdade e aliança.Lava-pés é despir-se do poder e revestir-se de humildade, desamarrar as sandálias para dar alívio aos sofredores.

Lava-pés é ir ao outro, ao povo, ao pobre, ser companheiro de viagem. Os pés fazem a gente dar passos e enxergar melhor; lá onde estão nossos pés, nossos olhos se abrem. Na escola do lava-pés superamos as atitudes de pretensão, competição, arbítrio, inveja, difamação e nos tornamos samaritanos querendo o bem dos outros, sofrendo a dor deles, carregando seus fardos, defendendo seus interesses.

Lava-pés é libertação do narcisismo, da arrogância, da presunção, das gratificações e aparências. É momento de total esvaziamento de nós mesmos, de nossa autossuficiência e da elevação dos outros. Saberemos exultar de alegria pelo sucesso alheio e jamais prejudicaremos alguém. Seremos pessoas de tolerância.

Lava-pés não é uma cerimônia nem uma encenação. É um jeito de viver, um estilo de vida, uma lógica de amor. Lava-pés é descer dos nossos pedestais, colocar-nos na situação dos outros, sendo empáticos e tratá-los como nossos melhores amigos. A espiritualidade do lava-pés hoje, diante desta realidade sofrida, violenta, pela qual se vende o ser humano como mercadoria, sendo coisificado, objeto de troca, cultuando cada vez mais o “deus mercado”, chama-se solidariedade, compaixão e comunhão. Seu alicerce é a humildade e o espírito de fraternidade. Em outras palavras, saber acolher as necessidades humanas, atender bem ao telefone, abrir a porta da casa, ser gentil no trânsito, estar do lado dos pobres, dentre outras ações que são gestos de verdadeiro lava-pés. Ser uma Igreja ‘casa dos pobres e escola de comunhão’, é Igreja do lava-pés. Na cultura contemporânea é mais fácil dar pontapés que lavá-los. Todo o interesse pela vida no planeta é, sem dúvida, um moderno lava-pés.

 

Pe. Marco José de Almeida

FacebookWhatsAppTwitter