2ª Reflexão da 4ª Semana Eucarística

9 de junho de 2021

4ª Semana Eucarística da Paróquia Nossa Senhora da Conceição – João Monlevade-MG.

Tema: Eucaristia: fraternidade e diálogo compromisso de amor!

Lema: “A fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 20-21).

2 ° Dia – Tema: A Eucaristia: Sinal e lugar da fraternidade.

“A Igreja vive da Eucaristia”. Estas palavras se tornaram o ponto de partida para o ensino de São João Paulo II em sua carta encíclica sobre a Eucaristia, escrita em 2003. Ele nos apresenta a Eucaristia como fonte de vida da Igreja e fonte de nossa vida de fé. Inspirados por essa solene afirmação, reconhecemos a Eucaristia como sacramento-fonte que alimenta a comunhão, a fraternidade e o serviço. Jesus Cristo é o “pão de Deus que desce dos céus e dá vida ao mundo” (João 6, 33). Quem d’Ele se alimenta permanece unido a Ele. Daí podermos falar em comunhão, pois ao recebermos o corpo e o sangue do Senhor, estabelecemos profundo vínculo de vida e de interação com Ele. O que Jesus Cristo é alimenta e sustenta em nós o que somos chamados a ser: filhas e filhos amados do Pai, irmãs e irmãos na grande fraternidade do Reino. Na recepção da Eucaristia podemos experimentar a seiva divina que nos vem pela presença real de Cristo e nos revitaliza para a caminhada cotidiana e construção da história. Essa comunhão com Jesus Eucarístico há de transbordar-se em crescentes ondas de fraternidade. Aquele que se identifica com Jesus Cristo, que adere ao seu Evangelho e o recebe eucaristicamente descobre que o caminho da vida eterna passa pelo coração e pela história do outro. Não há vida evangélica se se exclui o irmão. Dito de outro modo, o encontro com Jesus Cristo inclui, necessariamente, a presença e o cuidado com o irmão. No “amai-vos uns aos outros” (João 13,34) está inscrita a nova lei, a identidade do povo cristão: a fraternidade. Comunhão e fraternidade serão reconhecidas como autênticas expressões da adesão a Jesus Cristo enquanto se desdobrarem no serviço a Deus e aos irmãos. O verdadeiro serviço a Deus exige o serviço aos irmãos. E toda forma de serviço aos irmãos é, mesmo sem traços religiosos, serviço a Deus: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40). Nesse sentido, toda forma de serviço aos irmãos contém um teor eucarístico, isto é, de comunhão com Jesus Cristo e com o seu Evangelho. E para aqueles que não creem, servir seus irmãos é um caminho para o encontro com Aquele que se fez “pão para quem tem fome”. A sensibilidade para o encontro com o pobre é uma porta aberta para o encontro com Jesus Cristo que nos pobres se faz presente.

Mesa não combina com uma pessoa apenas. Mesa é lugar da fraternidade, da partilha e da solidariedade. O pão (alimento) é para ser feito em pedaços e distribuído. Mesa farta para ser partilhada é sinal de festa e de alegria! À mesa

celebramos os eventos importantes da vida, os quais nos tornam felizes e dão sentido à existência. A mesa deveria ser o espaço onde as pessoas se humanizam cada vez mais, convivendo pacífica e solidariamente. É isso que ocorre em nossas mesas? A “mesa eucarística”, onde Cristo se oferece como alimento, deveria ser o momento propício e o sinal privilegiado de humanização. Ao ser tentado pelo diabo no deserto, Jesus responde: não só de pão vive a pessoa. Mesmo reconhecendo a necessidade fundamental do alimento, a pessoa necessita de algo mais. Em todo ser humano há uma fome e um desejo que transcendem o alimento físico. É a fome e o desejo de se tornar sempre mais humano, a ponto de se divinizar. Jesus se apresenta como o pão da vida. Ele é o alimento da vida perene, sem fim. A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo nos coloca diretamente dentro da Eucaristia, sacramento por excelência. Conforme o Concílio Ecumênico Vaticano 2º, o sacramento da Eucaristia é a “síntese e o cume para onde tendem todos os sacramentos”. A Eucaristia nos torna sempre mais “Corpo de Cristo”, formando no mundo a grande família de Deus. Alimentar-se da Eucaristia significa dispor-se a promover a fraternidade entre todos.

No livro do Êxodo recordamos a primeira ceia. Também é um belíssimo texto Eucarístico. Deus protege o seu povo. Neste ritual, encontramos a alegria da partilha. Alguns detalhes nos lembram como é valiosa a comunhão entre as pessoas: a escolha de um animal sem defeito, partilhado com o vizinho; a união das famílias, manifestando a igualdade; a importância de todos participarem do Banquete; as ervas amargas que lembram os sofrimentos no tempo da escravidão. Na Carta aos Coríntios lemos um dos textos mais antigos sobre a Eucaristia. Um relato do que Cristo viveu. Está presente em cada Missa que participamos. O Cordeiro se faz Pão e Vinho, comida e bebida. Ele nos alimenta e nos dá força. A comunidade de Corinto que vivia a divisão e dúvidas, é convidada a experimentar e viver a partilha. A Ceia que Cristo realizou é exemplo de amor e partilha entre os irmãos. Celebrando-a com esta intenção e vivendo-a, encontramos o real sentido da Eucaristia. Também nos inspira na busca do pão material partilhado; vivência e promoção da justiça e do direito. Assim, nos motivou a Campanha da Fraternidade deste ano. Paulo insiste com os irmãos de Corinto para que se amem e pratiquem o amor ao próximo. Este deve ser vivido à luz do Cristo que o fez até o fim. O Cristo no Banquete Eucarístico torna – se o verdadeiro cordeiro. Ele nos ensina a partilhar. Mostra-nos que o mais importante não é ser servido. É servir o outro. Ele nos ensina o essencial de sua pregação: Amar até o fim. A Eucaristia nos ensina que Cristo nunca nos abandonará. Nela, encontramos força e sabedoria para construir uma sociedade de paz, justiça e direito. Assim, a vida terá sempre a última sentença. Em Cristo somos todos irmãos. Nele encontramos o motivo para testemunharmos esta certeza a todos. Quando as primeiras comunidades cristãs surgiram como narram os Atos dos Apóstolos, a expressão máxima de sua vida era a Fraternidade: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” At. 4,32.

A indiferença religiosa, sobretudo, nos dias atuais está se constituindo como o grande mal da humanidade, sendo pior até mesmo que o ateísmo, pois este nega a existência de Deus enquanto a indiferença leva a pessoa a viver como se Deus não existisse, apegando-se a qualquer coisa que a faça sentir-se bem. Este “egocentrismo” é vivido por quem é indiferente a Deus, onde o “eu” prevalece sobre o “nós” e o pensar em si mesmo, só querer o que é bom e o que causa prazer torna-se a tônica de sua vida.

A alegria de partilhar, de doar-se para poder encher-se mais, o dinamismo da oração, a entrega de cada um, o trabalho comunitário, não são um mero esforço humano, uma vontade de um ser humano, mas a ação de Deus em cada pessoa, quando se abre o coração para experienciar a graça de Pentecostes em nossas vidas. A vida fraterna “é lugar do perdão, alegria e festa”. A alegria de viver juntos é um sinal do Reino de Deus. Saber fazer festa juntos, alegrar-se com as alegrias do irmão, celebrar os aniversários natalícios ou matrimoniais, ser solidário com aquele que chora a perda de um ente querido, dar atenção às suas necessidades, enfrentar os momentos difíceis e experimentar tantas outras situações que tocam a todos, é um exercício constante de caridade que expressa o que é, de fato, a vida comum. O magistério não se omitiu em relação a esta dimensão. Bento XVI, na encíclica “Deus Caritas est” n° 21 afirma: “A diaconia, o serviço do amor ao próximo, exercido comunitariamente e de modo ordenado, ficará instaurada na estrutura da própria Igreja”. Esta afirmação refere se à instituição do Diaconato (Atos 6) para servir as mesas. No ano 220 Tertuliano atestava que “a caridade dos cristãos suscitava a admiração dos pagãos”1 (Deus Caritas est, n° 22).

O amor fraterno é a prova da autenticidade de nossas celebrações eucarísticas. A matéria prima da Eucaristia é o pão, a farinha, o trigo, que brotam da terra e do trabalho humano. Deus liberta seu povo do Egito sob a liderança de Moisés, para dar-lhe terra, pão, liberdade, e assim Israel pode adorar o Senhor. No deserto, os hebreus são alimentados com o pão que desceu do céu: o maná (Ex 16). Melquisedec oferece a Deus pão e vinho, ele é o “rei da justiça” (Gn 14,18-20). O pão na mesa requer a justiça social. Eis o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedec (Sl 110-4). Ao comungar o Corpo do Senhor, o pão do céu, não podemos continuar sendo insensíveis à fome humana, consumistas, “pão-duro e mão fechada”, nem colaboradores do desperdício e da ostentação. Eucaristia é também comunhão de bens, partilha, distribuição da renda. Mais ainda, a Ceia do Senhor é um “projeto de solidariedade” (João Paulo II) que mobiliza os fiéis para a ação social. A Eucaristia cria uma “cultura eucarística” que é a cultura da vida, da comunhão, da gratuidade, da dignidade humana, do diálogo e da misericórdia. Um novo mundo é possível a partir de Cristo e da Eucaristia. Sem a Eucaristia sofremos fome e solidão. Para não celebrar indignamente, precisamos organizar o atendimento aos pobres, desestabilizar as estruturas injustas e viver um estilo de vida onde a simplicidade e a sobriedade sejam

visíveis. A Eucaristia é o supremo bem da Igreja, pois contém a presença do próprio autor dos bens salvíficos, comunicados pelos outros sacramentos. Mas a Eucaristia é também a fonte da missão da Igreja, uma vez que a missão tem origem no encontro com o Cristo vivo. Quem se encontra verdadeiramente com Cristo, faz uma descoberta tão importante que não consegue guardar só para si. Sente necessidade de comunicá-la aos outros. A Eucaristia alimenta a missão. Desligada da Eucaristia, a missão perde a sua identidade. Transforma-se facilmente em proselitismo, em propaganda, em mercado religioso. Por fim, a Eucaristia constitui o próprio objetivo da missão: levar todas as pessoas à experiência pessoal do encontro com o Cristo vivo. A Eucaristia deve, pois, ser o núcleo de todo o projeto missionário.

A Eucaristia clama por uma nova ordem econômica e para a globalização da solidariedade. O pão da vida é também uma ordem para o pão da mesa. Daí a necessidade de repartir o bem-estar de uns para dar possibilidade de vida a outros, lembrando que o Criador destinou os bens da criação para todos. A Eucaristia reforça o destino universal dos bens. Aí está o mundo novo antecipado na Eucaristia, que é um projeto de solidariedade.

 

Pe. Marco José de Almeida

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