4ª Reflexão da 4ª Semana Eucarística

11 de junho de 2021

4ª Semana Eucarística da Paróquia Nossa Senhora da Conceição – João Monlevade-MG.

Tema: Eucaristia: fraternidade e diálogo compromisso de amor!

Lema: “A fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 20-21).

4 ° Dia – Eucaristia, caminho que gera a cultura do encontro com todos os irmãos.

A promoção da pessoa humana e de sua dignidade deve, sem dúvida, ser feita com os recursos materiais e morais ao alcance da comunidade. O cristão que se empenha nesse esforço em favor do irmão já está assim testemunhando seu amor, mas deve também se alimentar na Palavra e na Eucaristia para mais eficazmente transmitir em seu labor o Amor do Pai àquele que sofre. São João Paulo II, em carta a todos os bispos da Igreja sobre o mistério e o culto da Eucaristia, assinalava este seu significado na promoção da pessoa humana: “O autêntico sentido da Eucaristia se converte automaticamente em escola de amor ativo ao próximo (…) ‘Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros’ (Jo 13,35). A Eucaristia nos educa para este amor de modo mais profundo; com efeito, demonstra que valor deve ter aos olhos de Deus todo homem, nosso irmão e irmã, se Cristo se oferece a si mesmo de igual modo a cada um… Se nosso culto eucarístico é autêntico, deve fazer com que aumente em nós a consciência da dignidade de todo homem. A Consciência desta dignidade converte-se no motivo mais profundo de nossa relação com o próximo. Devemos tornar-nos particularmente sensíveis a todo sofrimento e miséria humana, a toda injustiça ofensiva, procurando modo de repará-los de maneira eficaz… O sentido do mistério eucarístico nos impele ao amor ao próximo, ao amor a todo homem”.

Como pessoas se encontram devemos revelar o coração da misericórdia do Pai, num encontro em que se sente continuamente amado e desejado pelo Pai. Foi essa relação com o Pai que levou Jesus a acolher cada pessoa que passou ao seu lado. O Evangelho não é narração da história do passado. São histórias do encontro. Estamos aqui para refletir a nossa história do encontro com Ele, por isso caminhamos atrás dos seus passos. O encontro nos tempos de hoje é um grande desafio da sociedade. O encontro verdadeiro possibilita o conhecimento do outro e a quebra dos preconceitos. Quem não conhece tem medo, exclui, agride. Só no encontro nos libertamos do puro instinto animal de sobrevivência baseados na lei do mais forte, na seleção natural. Infelizmente vivemos numa sociedade do desencontro, das notícias falsas ou distorcidas, em que tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, do mais esperto. Em consequência dessa situação, grandes massas da população são excluídas. Nesta sociedade quem não produz e não consome não serve para nada, é inútil. Em muitos casos nem se fala mais em exploração de pessoas, mas de pessoas inúteis, que não servem para o mercado, e assim não servem para nada. É o contrário que nos ensina São João Crisóstomo, padre da igreja dos primeiros séculos: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los, é tirar-lhes a vida”. Digamos “não” à desigualdade social que gera violência, nossas periferias estão sofrendo por conta da violência estrutural, onde morre a maior parte da juventude pobre e negra. Não podemos concordar com um estado

que restringe o direito de aposentadoria dos pobres e dos envelhecidos, caindo sobre eles o peso da pesada cruz de sobrevivência no momento atual. O pão da palavra leva partilha do pão, pão que mata a fome, que garante a vida em todas as suas dimensões. Seus passos para a cruz são consequências do desejo de que todas as mesas sejam fartas. O pão representa e simboliza o direito à dignidade humana, que como diz o Papa Francisco: “O direito ao trabalho, o direito à terra e o direito ao teto. A fome é o grande desafio da humanidade por que é a consequência mais cruel deste sistema econômico em que o deus mercado comanda tudo. Não podemos celebrar dignamente a Eucaristia, ignorando e privando nossos irmãos do direito ao alimento e de condições dignas para viver.

O pão da palavra e o pão partilhado nos impulsionam, nos dão energia e coragem, como aconteceu com os discípulos de Emaús, no encontro com Jesus. Na quinta-feira Santa Ele tomou um avental e começou a lavar os pés dos seus discípulos, mostrando que o poder é o serviço. Fez esse grande gesto para que eles aprendessem que o serviço é consequência direta do encontro com Jesus palavra e pão, o que muitas vezes leva ao martírio, como foi o seu, por causa da justiça social. Nosso continente está encharcado com o sangue de mártires, homens e mulheres que tiveram a coragem de assumir o serviço em defesa vida para todos. O sangue do martírio continua sendo derramado hoje, não é só coisa do passado. Lideranças comunitárias, de movimentos sociais, indígenas, sem tetos são mortos todos os dias. E assim Deus continua a nos perguntar como perguntou a Caim: “Onde está o teu irmão? Que fizestes? O Sangue do teu irmão clama da terra por mim!” o sangue de nossos irmãos clama da terra por nós!

Refeição é a humanização do ato de comer. Nela o ser humano procura não apenas saciar-se, mas busca também o prazer, a convivência, a alegria de estar junto com alguém que lhe é familiar. Não constitui apenas um ato necessário, útil, mas também agradável. Realizada normalmente em comum, a refeição reúne pessoas que têm laços afetivos, relacionamentos próximos, comunhão de vida e de ideais. Nesse sentido, refeição implica ar festivo, fraterno, comemorativo de conquistas humanas. “A Missa é ao mesmo tempo e inseparavelmente o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz, e o banquete sagrado da comunhão no Corpo e no Sangue do Senhor”. Afirma Santo Tomás: “Precioso e admirável banquete, salutar e cheio de toda a suavidade! Neste sacramento são perdoados os pecados, crescemos nas virtudes, e a alma se promove com todos os dons espirituais. Oferece-se na Igreja, pelos vivos e pelos defuntos, para que beneficie a todos, o que para a salvação de todos foi instituído”.

A comunhão eucarística é encontro de amor e de graça, momento em que se alimenta, se celebra e aflora com especial intensidade a experiência mística dos cristãos. “Para que a intensidade de seu amor ficasse mais profundamente gravada nos corações dos fiéis, lembra Santo Tomás de Aquino, Cristo instituiu este sacramento da última Ceia, quando ao celebrar a Páscoa com os seus discípulos estava prestes a passar deste mundo para o Pai. A Eucaristia é o memorial perene da sua Paixão e cumprimento perfeito das figuras da Antiga Aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou. É ainda singular conforto que ele nos deixou para os que se entristecem com sua ausência”. Ao partir o pão, os discípulos de Emaús descobriram em definitivo o que já haviam

percebido ao longo do caminho, enquanto ele lhes explicava as Escrituras: Jesus ressuscitou; está vivo entre nós! O Emanuel, “Deus conosco”, que se fez presença através da encarnação, está sacramentalmente presente na Eucaristia, presença que se insere na sequência das grandes maravilhas de Deus na história. Cada vez que partimos o pão, como o Senhor nos mandou, ele se faz presente, ressuscitado, com toda a sua divina energia, com seu Espírito Santo, como prometeu. Ao partir o pão, a fé vê mais longe, para além dos meros símbolos humanos, para além das aparências: é o Senhor! Depois disso, o Ressuscitado pode desaparecer, porque sua presença visível já cumpriu sua missão: despertou a fé na sua ressurreição.

A solidariedade tão fortemente testemunhada no Evangelho é revivida em cada banquete eucarístico. Supera todas as barreiras, vence todas as divisões. A Eucaristia nos envia em missão, e a missão precisa dela se alimentar constantemente, pois as atividades dos cristãos podem gerar desgastes e até o esvaziamento das motivações evangélicas. A comunhão é fonte de energia missionária. Viver plenamente a Eucaristia significa, então, fazer com que esse encontro com o Senhor Jesus seja a razão de ser, a força e a beleza de toda nossa vivência eclesial em prol da construção da civilização do amor. “Eis o mistério da fé”! Esta proclamação da liturgia da Igreja traduz a dignidade inigualável do Dom da Eucaristia, onde o Pão dos anjos fez-se Pão dos homens. Mistério e Dom que ultrapassam não só a compreensão humana, mas também a capacidade de corresponder ao amor de Deus. A Igreja vive da Eucaristia, porque nela se celebra sacramentalmente o mistério da nossa redenção, fonte perene de vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Ao celebrar a Eucaristia, a comunidade eclesial obedece ao mandato do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”, e confirma que, ao fazê-lo, nos tornamos participantes do banquete das núpcias do Cordeiro.

E o que fazer para que o nosso povo conheça mais sobre a importância da Eucaristia? “A melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada” (Sacramentum Caritatis, n. 64). A doutrina cristã não é um amontoado de regras antiquíssimas, mas trata de uma Pessoa, de uma experiência real com a Pessoa de Jesus Cristo. Quando participamos ativamente da Missa, que não significa fazer coisas ou assumir funções dentro dela, o nosso coração realmente ancora-se no Senhor. Somos banhados pela Sua Misericórdia e passamos a ter em conta no coração e no convívio aqueles que são os nossos irmãos: os mais necessitados, os pobres, os prediletos do Senhor.

A unidade da Igreja é fortemente um fruto da comunhão que fazemos com Deus e com os nossos irmãos. Chamamos facilmente a Eucaristia de comunhão, e não é errado chamá-la assim. Mas que tipo de comunhão esse sacramento exige? O Papa Francisco em uma de suas catequeses sobre os sacramentos, afirmou que fazer comunhão significa participar da mesa eucarística que prontamente, mediante nossa fé e por graça do Espírito Santo, nos conforma a Cristo de maneira singular e profunda. Ele ainda diz que o fim dessa comunhão, em plena comunhão com o Pai, nos levará ao banquete do céu, juntamente com todos os santos. A Eucaristia é o alimento que nos fala das coisas futuras, mas também nos fala da caridade que gera unidade ainda neste mundo e de modo especial em João Monlevade.

Uma espiritualidade de comunhão, significa também a capacidade de ver aquilo que há de positivo nos outros, para o acolher e o valorizar como um dom de Deus, não somente para o irmão que o recebeu diretamente, mas também como um “dom para mim”. Por último, o Papa São João Paulo II insistiu sobre a necessidade de sabermos “dar um lugar” ao irmão ou irmã, carregando “os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e resistindo às tentações egoístas que continuamente nos assaltam e que provocam competição, carreirismo, suspeitas e inveja. O Papa São João Paulo II conclui com firmeza o seu comentário sobre a espiritualidade da comunhão dizendo: “Não nos iludamos: sem esta caminhada espiritual, os meios exteriores da comunhão terão bem pouco valor. Eles se tornarão em fachadas sem alma, em máscaras de comunhão, ao invés de meios de suas expressões e crescimento”.

Nós não podemos, no entanto, ficar parados nesta espiritualidade de comunhão, vivida entre nós. É preciso ampliar essa espiritualidade à uma eclesiologia de comunhão a todos os níveis de vida da Igreja. Isso comporta uma nova atenção à Palavra de Deus, assim como propôs o Concílio Vaticano II, um crescente sentido de corresponsabilidade no cuidado pastoral, um amor preferencial pelos pobres, pelas crianças, pelos jovens e idosos, uma redescoberta da dimensão dos verdadeiros carismas da Igreja e um melhor apreço da dinâmica sinodal na vida da Igreja. Que a Virgem Santíssima, a Mulher Eucarística, nos ajude a comungar a vida do Senhor em consonância com as necessidades dos mais pobres, como Ela fez ao correr ao encontro de sua prima Isabel (Lc 1,39). A verdadeira comunhão eucarística deseja nesta Quarta Semana de nossa Paróquia nos colocar apressadamente a caminho dos outros!

 

Pe. Marco José de Almeida

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