6ª Reflexão da 4ª Semana Eucarística

13 de junho de 2021

4ª Semana Eucarística da Paróquia Nossa Senhora da Conceição – João Monlevade-MG.

Tema: Eucaristia: fraternidade e diálogo compromisso de amor!

Lema: “A fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 20-21).

6 ° Dia – Eucaristia: Sustento da nossa esperança num mundo doente!

Na Eucaristia, Jesus se junta aos homens e mulheres para alimentar neles a fé, a esperança e a caridade. Na Eucaristia Ele oferece si mesmo como força espiritual para nos ajudar a colocar em prática o seu mandamento – amar uns aos outros como Ele nos amou – construindo comunidades acolhedoras e abertas às necessidades de todos, especialmente das pessoas mais vulneráveis, pobres e necessitadas. A Eucaristia – sublinhou o Papa Francisco – é sacramento da sua carne, dada para fazer viver o mundo; quem se nutre deste alimento permanece em Jesus e vive por Ele. Assimilar Jesus significa ser n’Ele, tornar-se filhos no Filho. “Nutrir-se de Jesus Eucaristia – continuou Francisco – também significa abandonar-nos com confiança a Ele e deixar-nos guiar por Ele. Trata-se de acolher Jesus no lugar do próprio “eu”. Desta forma, o amor gratuito recebido de Cristo na Comunhão eucarística alimenta o nosso amor por Deus e pelos nossos irmãos e irmãs que encontramos no caminho de cada dia”.

“O atual governo central optou por caminhos tortuosos no enfrentamento à pandemia. Na contramão da ciência, das recomendações da Organização Mundial da Saúde e desdenhando de experiências frutuosas no combate à COVID-19, como o isolamento social, criou uma ‘tempestade perfeita’, associando de maneira enviesada as crises econômica e política à crise sanitária. Essa associação indevida mitigou esforços para o combate à pandemia e produziu graves tensões institucionais, com potencial para aumentar os conflitos sociais e produzir uma erosão democrática.” O colapso no atendimento hospitalar, alertado desde o início da pandemia, se alastra, agora, pelo país. Se o momento é catastrófico, onde chegaremos com as medidas paliativas, ora em curso? Tornamo-nos gado que vai para o matadouro. Resta-nos a justiça divina. Essa não falha. Se, com fé, por ela combatemos, temos certeza da vitória. Afinal, “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Em tudo nos tornamos mais que vencedores, graças a Jesus Cristo que nos amou por primeiro (cf. Rm 8,37). Seu amor nos liberta e nos impele à ação (cf. 2Cor 5,14).

É nesta Igreja que eu acredito e acreditamos firmemente. Uma igreja que se une e discute como ela fez nos seus primeiros anos, quando todos os apóstolos eram ainda vivos. À luz do Concílio, a Igreja no Brasil e na América Latina fez um esforço sincero de crítica e autocrítica. Frente à frente com a realidade, realizou dois grandes encontros que marcaram para sempre o rosto da Igreja: as conferências de Medellín e de Puebla. De todas as Igrejas particulares espalhadas no mundo inteiro, a Igreja da América Latina e do Brasil, eram protagonistas em tomar a iniciativa de “tirar o homem velho e vestir o homem

novo” culminando na tomada da “opção preferencial pelos pobres”, o que assustou o mundo lá fora. Acredito que em nosso tempo, mais outra vez estamos na vigília de um outro grande momento profético. O Papa Francisco, o Papa latino americano, chamou um Sínodo Universal sobre um assunto que atinge toda a humanidade, que é a família, proporcionando um outro momento forte. Isto porque o Papa e os Bispos não vão se encontrar antes de escutar a base da Igreja nos cinco continentes, buscando saber o sensum fidei, sobre um assunto tão importante. Vai ser uma Igreja aberta ao Espírito Santo, sem receios, sem constrangimentos, num modo livre e leal. Acredito que os anos que virão serão muito semelhantes aos anos que a geração ante de mim viveu após o Concilio. Como se diz: a história sempre se repete.

Benditos os que têm fome de si e mergulham fundo no âmago do ser, arrancam dissabores do paladar medíocre, farto de migalhas caídas da mesa de Narciso. E os insaciados no apetite de beber do próprio poço e devorar gorduras impregnadas nas reentrâncias da alma. Caminhamos na fé e na esperança. Maria nos ensinou que podemos até interrogar a Deus: “Mas como isso será possível?” (Lc 1, 4), já que precisamos sempre dar as razões da nossa esperança a todos quantos as pedem a nós (cf. 1Pd 3,15), mas não nos cabe a desesperança. A nossa espiritualidade alimenta-se da “mística do recomeço” e, sobretudo, da vitória. No centro da nossa fé está aquele que pareceu fracassar aos olhos humanos, mas está vivo e ressuscitado no meio de nós: Jesus Cristo! Certamente essa mística não escapou a Paulo, outro que teve que recomeçar depois de “cair por terra” (At 9,4), ao nos deixar, como testamento espiritual, a mais bela síntese da luta cristã: “Todavia, esse tesouro nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa. Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Animados pelo mesmo espírito de fé, sobre o qual está escrito: ‘Acreditei, por isso falei’, também nós acreditamos e por isso falamos. Pois sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos ressuscitará com Jesus e nos colocará ao lado dele juntamente com vocês. E tudo isso se realiza em favor de vocês, para que a graça, multiplicando-se entre muitos, faça transbordar a ação de graças para a glória de Deus” (1Cor 4, 7-9.13-15).

Quem diria que experimentaríamos um pouco do sabor do exílio ou da longa noite amarga do Egito, com essa pandemia do coronavírus? Obviamente as condições são outras! No entanto, os cenários mundial e brasileiro que se descortinam diante de nós, nos quais nós mesmos desenrolamos o drama da nossa existência, também cheiram a sofrimento, dor e morte. Para a maioria de nós, nunca a morte trágica esteve tão perto de nossas portas, mesmo daquelas “marcadas com o sangue do cordeiro” (Ex 12,7)! Quem contava com a necessidade de mudar drasticamente o ritmo de vida, distanciar-se socialmente do trabalho e do convívio com os familiares e amigos, para preservar a sua vida e de seus semelhantes? Quem ao menos suspeitava ter que acompanhar, de perto ou à distância, a agonia e a morte de tantos irmãos e irmãs, que partiram sem ao menos darem o seu adeus? Quem sonhava assistir, tomado por uma ira santa, a ingerência de uma situação gravíssima por parte do Estado, cujos

chefes, versões medíocres dos antigos faraós, brincam com a vida humana e fazem dela objeto de trocas espúrias? Quem chegou a pensar, um dia, em ver as portas das igrejas fechadas e suas celebrações transferidas para a Igreja doméstica da família, na medida do possível, ou mediada pelas tecnologias de comunicação e redes sociais? Quem diria que, de um momento para o outro, os encontros catequéticos e demais atividades pastorais seriam suspensos na sua modalidade presencial, exigindo dos catequistas e demais lideranças criatividade e empenho redobrados, para descobrirem outras possibilidades de fazer ecoar a Boa-nova de Jesus Cristo? Quem diria!

É certo que cada um de nós está fazendo e deverá fazer leituras próprias do caminho percorrido, durante esse período de duração da pandemia. Prejuízos e saldos serão contabilizados não somente agora, mas na trajetória a seguir. No entanto, de modo objetivo, podemos acenar para três aspectos pessoais que merecem reflexão: 1) A superação do egoísmo: mais do que nunca sentimos o quanto dependemos uns dos outros. Ficar em casa e usar máscaras quando saímos, por exemplo, foi fundamental para garantir a nossa saúde, mas também a dos nossos semelhantes. Saber que algum excesso poderia colocar em risco a vida alheia nos fez ver que todos estamos interligados e somos igualmente responsáveis uns pelos outros. A falta de alguns serviços essenciais também nos fez pensar que nenhum de nós é autossuficiente. Entendemos melhor que, se muito dessa pandemia se deve a ações irresponsáveis de alguns, as soluções para uma maior qualidade de vida para todos dependerão da união de todos e não apenas do esforço de poucos. 2) A pergunta pelo essencial da vida: a triste realidade do contágio do coronavírus e a realidade de tantas mortes trágicas nos fizeram enxergar que de nada adianta poder ou dinheiro nessa hora. Todos somos vítimas em potencial. E a iminência do fim pediu de nós uma revisão do que realmente consideramos essencial em nossas vidas. De repente, todos tivemos que deixar tudo e ficar dentro de casa, contentando-nos com o mínimo. Vale a pena a correria da vida, no esforço de alimentar os monstros do acúmulo de coisas e do consumismo? Isso pode nos salvar? 3) O reforço das virtudes da fé, da esperança e da caridade: essas virtudes, ensina-nos a Igreja, são dons de Deus. No entanto, exigem nossa acolhida e nossa resposta diária. Fiquemos atentos ao modo como nutrimos a nossa vida cristã, para que sempre estejamos prontos a responder com coragem aos desafios tantos que a vida nos traz!

O Papa Francisco tem insistido na necessidade de buscarmos novas linguagens e meios para a evangelização e a catequese. Ele diz: “É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diversos âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros”. Nova carne. Expressão estranha, mas provocativa, pois nos remete à maravilhosa pedagogia de Deus, que se encarnou, tornou-se gente, para ficar mais próximo de nós! Esse é o paradigma para o evangelizador, e a pandemia nos fez olhar de novo para ele.

“O Senhor foi grande conosco, e por isso estamos alegres!” (Sl 126, 3). Não obstante tanto sofrimento que enfrentamos, teremos a graça de recomeçar. Fala-se do retorno como um “novo normal”. Gostaríamos que assim não fosse, pois o

antigo “normal” provou sua insuficiência. Preferimos o desafio da renovação, do aprendizado, do amadurecimento, do mistério da semente que morre para gerar novo rebento. Será o tempo da criatividade suscitada pelo Espírito ou, como disse o Papa Francisco, este é o momento propício para encontrar a coragem de uma nova imaginação possível, com o realismo que só o Evangelho nos pode oferecer”. Como cantava o salmista, “o Senhor mudou a sorte de Sião” (Sl 126,1). Os rumos serão outros e esperamos que melhores! A “mística do recomeço” propõe que não esqueçamos as lágrimas da semeadura, das quais depende a fartura da colheita. Nossa fé nos pede que voltemos cantando, trazendo os feixes nos braços (cf. Sl 126,6). Afinal, mais uma noite de Egito ou de exílio ficará para trás. Apreensivos com a pandemia, almejamos paz. Ela depende de nossa corresponsabilidade e de nossa luta em favor do que é justo. Santo Agostinho assim nos diz: “É bom desejar a paz, mas, se não se realiza a justiça, esse desejo converte-se em mentira”, e completa com palavras propícias para a Quarta Semana Eucarística, sobretudo deste ano: “enquanto houver vontade de lutar, haverá esperança de vencer”. Unamo-nos, pois, solidariamente, em Cristo, em defesa da vida, afinal a solidariedade salvará a humanidade. Agora é tempo da reconstrução, na certeza de que o Senhor sempre esteve no meio de nós e sempre nos dará a sua bênção: “Que o Senhor nos abençoe desde Sião, e vejamos a prosperidade de Jerusalém todos os dias de em nossas vidas. Que vejamos os filhos de nossos filhos. E a Paz sobre Israel e hoje de modo especial sobre João Monlevade!”

 

Pe. Marco José de Almeida

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