Patriarca caldeu: liturgia não é espetáculo, mas forte expressão da fé viva da Igreja

15 de outubro de 2021

O cardeal iraquiano recordou que o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, definiu de forma paradigmática as características distintivas de todo processo autêntico de reforma litúrgica, a ser iniciado para que “o povo cristão possa mais seguramente obter as abundantes graças que a sagrada liturgia contém”.
A liturgia não é “a representação de um espetáculo”, mas é “a mais forte expressão da fé viva da Igreja”, obra do próprio Cristo que através dela “nos chama a entrar em seu Mistério Pascal”.

É o que reitera o patriarca da Igreja Caldeia, cardeal Luis Raphael Sako, no articulado pronunciamento transmitido pelos canais oficiais de comunicação do Patriarcado como uma contribuição para o processo de atualização litúrgica em andamento naquela estrutura eclesial.

Na primeira parte, o patriarca Sako delineia a natureza própria da ação litúrgica e sua centralidade na vida da eclesial. “A liturgia – enfatizou – é a celebração da presença de Cristo em seu mistério pascal, em modo atrativo, entusiasmado e jubiloso. Isto ao menos é o que deveríamos perceber em cada celebração litúrgica.

É lamentável – diz o purpurado iraquiano – ver que em algumas práticas litúrgicas, incluindo a Missa, nos sentimos como se estivéssemos de luto, ou no local de um espetáculo, e não na alegria de celebrar a presença do Cristo glorificado, penhor de nossa vida eterna”.

Precisamente a importância da liturgia na vida da Igreja – acrescenta ele – implica “a necessidade de preparar bem a celebração”, seguindo os tempos litúrgicos que preveem “orações próprias, com cantos e leituras, para cada Tempo”. Esta vida diária marcada pelos tempos e momentos da liturgia é o que viveram nossos santos e mártires, e é aquilo pelo qual devemos almejar ardentemente”.

E é justamente a natureza íntima da ação litúrgica – aponta o patriarca caldeu – que sugere os critérios elementares de toda autêntica renovação das práticas litúrgicas. Uma “atualização” que só pode ser realizada permanecendo dentro da estrutura da Tradição, que nunca é “nostalgia do passado”, mas “leva em frente” a Igreja em seu caminho através da história.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia – citada pelo patriarca Sako – definiu de forma paradigmática as características distintivas de todo processo autêntico de reforma litúrgica, a ser iniciado para que “o povo cristão possa mais seguramente obter as abundantes graças que a sagrada liturgia contém”.

Por esta razão – ensinou o  último Concílio Ecumênico – nas autênticas reformas litúrgicas, “a disposição dos textos e dos ritos deve ser conduzida de tal forma que as realidades sagradas que eles significam sejam expressas mais claramente e o povo cristão possa compreender mais facilmente seu significado e possa participar delas com uma celebração plena, ativa e comunitária”.

Estas diretrizes – sugere o purpurado iraquiano – podem alimentar e orientar proveitosamente também a renovação litúrgica necessária na Igreja Caldeia. Citando casos e circunstâncias concretas, ele observa que na bênção final da Missa dominical e festiva dos caldeus, “o celebrante reza: ‘Deus, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Jesus Cristo nosso Senhor… abençoe a nossa assembleia, nos reúna e santifique o nosso povo que veio e desfrutou da força destes gloriosos mistérios…’. Mas se o fiel não entende essas fórmulas, como pode usufruir dela”?

Seguindo o mesmo critério, é apropriado estabelecer “um tempo adequado para a celebração, levando em conta as necessidades dos estudantes e trabalhadores, e não as do celebrante, seja ele bispo ou sacerdote”.

Na Igreja Caldeia – acrescenta o cardeal iraquiano – a expressão litúrgica amadureceu no âmago de “uma cultura particular e em uma língua que é raramente falada hoje em dia”. Nossos ritos atuais datam de mais de 1.400 anos e, às vezes, seu conteúdo, linguagem e estilo não correspondem à cultura e sensibilidade de nosso tempo”.

Na última metade do século passado, os caldeus batizados “deixaram o campo em direção às grandes cidades” e nas últimas décadas, devido à deterioração das condições de segurança, “a maioria da população caldeia emigrou para países onde a cultura é diferente, o sistema é diferente, os costumes são diferentes, a língua é diferente”.

Como resultado destes processos históricos, “a maior parte de nossas paróquias hoje perdeu a prática da oração ritual por causa da língua, da duração, da repetição e da falta de atualização”. Por esta razão, o patriarca Sako vê a renovação da liturgia caldeia como “uma oportunidade”, apesar das “críticas de conservadores e extremistas”.

Como sugere o grande teólogo Jean Corbon, apaixonado pelo cristianismo do Oriente e das Igrejas árabes, em toda autêntica renovação litúrgica realizada na esteira da Tradição se encontra e se repete “o mistério da fonte: é sempre a mesma, mas a água viva que brota dela é sempre nova”.

*Com Agencia Fides

Vatican News
Imagem capa: Vatican Media

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